Mi Norte es Latinoamérica

“Mi Norte es Latinoamérica” é uma releitura de “América Invertida”, obra do artista uruguaio Joaquín Torres García. A primeira vez que me deparei com o mapa de Torres foi em uma viagem ao Uruguai, feita em 2017. Desde então, me vejo completamente obcecada com as reflexões que ele desperta em mim. À época em que foi concebida, América Invertida era uma crítica à importação de uma estética norte-americana e europeia pelos países sul-americanos, mas eu gosto de vê-lo por uma ótica mais ampla, sob uma perspectiva político-social e descolonizadora. Dessa maneira, “Mi Norte es Latinoamerica” nega os padrões eurocentristas e o imperialismo americano e propõe o resgate das nossas raízes latinas, o reconhecimento do legado dos povos originários, a valorização das nossas tradições e a preservação da nossa natureza, tão exuberante e colorida.
A América Latina é tão plural e rica na sua cultura, biodiversidade e modos de vida, que foi difícil tentar resumi-la em alguns poucos símbolos/elementos. Estão representados nesta arte: o Páramo colombiano – um ecossistema que concentra um grande número de espécies endêmicas de fauna e flora- , o Peru com suas lhamas e vegetação típica de grandes altitudes, a Bolívia e as cholitas, símbolos de resistência feminina indígena na América Latina e as paisagens de tirar o fôlego da Patagônia argentina e chilena. Por fim, o maior desafio de todos: ilustrar o nosso Brasil em toda a sua grandeza. Apesar de enorme territorialmente, foi impossível reunir todos os símbolos que caracterizam o nosso país. Fiquei, então, com a vitória régia, o sertão, a onça pintada passeando pela mata atlântica e o pampa, que se estende até a Argentina e o Uruguai.
Do desenho de Torres, suprimi a caravela, que, pra mim, reforça a ideia da América Latina como colônia, e mantive a ideia do peixe, que acabou virando um peixe-boi, a lua e o sol, representado aqui por um cobogó – um elemento arquitetônico tipicamente brasileiro.
“Mi Norte es Latinoamérica” celebra o esplendor, a singularidade e o orgulho dos nossos modos de vida. Viva a América Latina!